Anjo Caído

Lauren Kate

E se a pessoa que lhe estava destinada nunca podesse ser sua?   Existe qualquer coisa de dolorosamente familiar em Daniel Grigori. Misterioso e distante, prende a atenção de Luce Price logo que o vê no primeiro dia de aulas no internato Sword & Cross, em Savannah. É a única coisa boa num lugar...
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EXCERTO do 1? CAPÍTULO:

 

NO PRINCÍPIO

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HELSTON, INGLATERRA

SETEMBRO DE 1854

 

Por volta da meia‑noite, os olhos dela tomaram finalmente forma. A expres­são era felina, meio decidida e meio hesitante, problemática. Sim, estavam mesmo bem aqueles olhos. Erguendo‑se para as sobrancelhas finas e ele­gantes, a poucos centímetros da cascata escura do cabelo.

Esticou o papel a todo o comprimento do braço para avaliar o pro­gresso do esboço. Era complicado trabalhar sem a ter à sua frente, mas, por outro lado, nunca conseguiria desenhar na sua presença. Desde que chegara de Londres, não, desde que a vira pela primeira vez, tivera de ter cuidado para a manter sempre à distância.

Aproximava‑se agora dele todos os dias e cada dia era mais difícil do que o anterior. Era por isso que se ia embora na manhã seguinte, para a Índia, para as Américas, não sabia para onde nem se importava. Qualquer sítio seria mais fácil do que estar aqui.

Inclinou‑se de novo sobre o desenho, suspirou e usou o polegar para aperfeiçoar o beicinho traçado a carvão do seu lábio inferior polpudo. Este papel inanimado, cruel impostor, era a única forma de a levar com ele.

Então, endireitando‑se na cadeira de couro da biblioteca, sentiu‑a. Aquela pincelada de ardor na parte de trás do pescoço.

Ela.

A sua mera proximidade provocou‑lhe uma sensação muito peculiar, como o tipo de calor que é emitido quando um pedaço de lenha se desfaz em cinza numa lareira. Soube, sem se virar: ela estava ali. Cobriu o retrato que gizava nos papéis encadernados que tinha sobre o colo, mas não podia escapar‑lhe.

Os olhos demoraram‑se no canapé estofado cor de marfim do outro lado da saleta, onde há apenas algumas horas ela surgira inesperadamente, mais tarde do que o resto do grupo, num vestido de seda cor‑de‑rosa, para aplaudir a filha mais velha do anfitrião de ambos que se esmerara no cravo. Lançou um olhar à janela, lá para fora para o alpendre, onde no dia anterior se aproximara sorrateiramente dele, com um punhado de peónias silvestres brancas na mão. Ainda pensava que a força que a atraía para ele era ino­cente, que os seus encontros frequentes no belveder eram meramente… coincidências felizes. Como era ingénua! Nunca lhe diria nada em contrá­rio, o segredo era dele, arcaria com ele.

Ergueu‑se e virou‑se, os esboços pousados na cadeira de couro. E lá estava ela, comprimida contra a cortina de veludo cor de rubi no seu sim­ples penteador branco. O cabelo negro soltara‑se da trança. A expressão no rosto era a mesma que desenhara tantas vezes. Lá estava o fogo, a subir‑lhe nas faces. Estava zangada? Inibida? Desejava ardentemente saber, mas não se atrevia a perguntar.

– O que está aqui a fazer? – Detectou a rispidez na sua voz e lamentou a brusquidão, sabendo que ela nunca entenderia.

– Eu… não conseguia dormir – tartamudeou ela, avançando na direc­ção da lareira e da sua cadeira. – Vi a luz no seu quarto e depois… – fez uma pausa, olhando para as mãos – o seu baú à porta. Vai a algum lado?

– Ia dizer‑lhe… – Interrompeu‑se. Não devia mentir. Nunca preten­dera que ela ficasse a saber dos seus planos. Dizer‑lho só tornaria as coisas piores. Já deixara as coisas chegar demasiado longe, na esperança que desta vez fosse diferente.

Ela acercou‑se mais e os olhos detiveram‑se no caderno de esboços.

– Estava a desenhar‑me?

O tom sobressaltado recordou‑lhe como era grande o fosso entre o que ambos compreendiam. Apesar de todas as horas que tinham passado jun­tos nestas últimas semanas, ela estava muito longe de vislumbrar a verdade que se escondia por trás da atracção que existia entre os dois.

Isso era bom, ou pelo menos era melhor para ela. Nos últimos dias, desde que tomara a decisão de partir, lutara para se afastar dela. O esforço exigia tanto dele que, logo que ficava sozinho, tinha de ceder ao desejo reprimido de a desenhar. Enchera o caderno com páginas do seu pescoço arqueado, dos seus ombros de mármore, do abismo negro do cabelo.

Voltou a olhar para o esboço, não envergonhado por ter sido apanhado a desenhá‑la, mas pior. Um arrepio gelado percorreu‑o quando percebeu que a descoberta dela, a revelação dos seus sentimentos, a destruiria. Devia ter tido mais cuidado. Começava sempre assim.

– Leite quente com uma colher de sopa de melaço – murmurou, ainda de costas para ela.

Depois acrescentou com tristeza:

– Ajuda‑a a dormir.

– Como sabia? Ora, é exactamente o que a minha mãe costumava…

– Eu sei – retorquiu, virando‑se para a enfrentar.

O tom espantado da voz dela não o surpreendeu, porém não podia explicar‑lhe como sabia, ou dizer‑lhe quantas vezes lhe administrara esta mesma bebida no passado quando as sombras chegavam, como a abraçara até ela adormecer.

Quando lhe tocou foi como se algo o queimasse através da camisa, a mão dela pousada suavemente no seu ombro, fazendo‑o arquejar. Ainda não se tinham tocado nesta vida e o primeiro contacto deixava‑o sempre sem fôlego.

– Responda‑me – sussurrou ela. – Vai partir?

– Sim.

– Então leve‑me consigo – exclamou bruscamente.

Mesmo no momento certo, viu‑a suster a respiração, desejando retirar o que dissera, aquela súplica. Observou a evolução das emoções a instalar‑se no vinco entre os olhos. Sentir‑se‑ia impetuosa, depois desnorteada, a seguir envergonhada do seu próprio atrevimento. Fazia sempre isto e, demasiadas vezes anteriormente, cometera o erro de a consolar neste exacto instante.

– Não – sussurrou, recordando‑se… recordando‑se sempre… – Parto amanhã. Se se interessa um pouco por mim, não dirá nem mais uma palavra.

Se me interesso por si – repetiu ela, quase como se falasse consigo mesma. – Eu… eu amo

– Não.

– Tenho de dizê‑lo. Eu… eu amo‑o, tenho absoluta certeza e se par­tir…

– Se partir, salvo‑lhe a vida. – Falou lentamente, tentando chegar a alguma parte dela que pudesse recordar‑se. A lembrança estaria lá, enter­rada algures? – Algumas coisas são mais importantes do que o amor. Não está a entender, mas tem de confiar em mim.

Os olhos dela fulminaram‑no. Deu um passo atrás e cruzou os braços sobre o peito. A culpa desta atitude era sua também… Fazia sobressair sempre o seu lado desdenhoso quando falava com ela daquela maneira.

– Está a querer dizer que há coisas mais importantes do que isto? – desafiou‑o, pegando‑lhe nas mãos e puxando‑as para o seu coração.

Oh, quem lhe dera ser ela e não saber o que aí vinha! Ou pelo menos ser mais forte do que era e conseguir fazê‑la parar. Se não a fizesse parar, ela nunca aprenderia e o passado repetir‑se‑ia muito simplesmente, torturando‑os a ambos, vezes sem conta.

O calor familiar da pele dela sob as suas mãos obrigou‑o a inclinar a cabeça para trás e gemer. Estava a tentar ignorar o facto de ela se encontrar muito perto, de conhecer muito bem a sensação dos lábios dela nos seus, de se sentir tão ressentido por tudo isto ter de terminar. Mas os dedos dela eram tão leves nos seus. Sentia‑lhe o coração a bater com tanta força atra­vés do tecido de algodão fino.

Ela tinha razão. Não havia mais nada senão isto. Nunca houvera. Estava prestes a ceder e a tomá‑la nos seus braços quando lhe detectou a expres­são nos olhos. Como se tivesse visto um fantasma.

Foi ela que se afastou, uma mão na testa.

– Estou a ter uma sensação esquisitíssima – sussurrou.

Não… seria já demasiado tarde?

Os olhos dela estreitaram‑se tal como os desenhara no esboço e voltou a aproximar‑se dele, as mãos no seu peito, os lábios entreabertos e expec­tantes.

– Diga‑me que estou louca, mas juro que já aqui estive antes…

Então era mesmo demasiado tarde. Ergueu os olhos, a tremer e sentiu a escuridão a descer. Agarrou a última oportunidade de a aprisionar, de a abraçar com tanta força quanto ansiava há semanas.

Logo que os lábios dela se fundiram nos seus, ambos ficaram impoten¬tes. O sabor a. madressilva da boca dela entonteceu o. Quanto mais ela se comprimia contra ele, mais o seu estômago se agitava com a excitação e a dor daquilo tudo. A língua dela delineou a dele e o fogo entre eles ardeu mais brilhante, mais quente, mais poderoso a cada novo toque, a cada nova exploração. Contudo, nada daquilo era novo.

A sala estremeceu. Uma aura à volta deles começou a cintilar.

Ela não reparou em nada, não estava consciente de nada, não compreendia nada para além do beijo que trocavam.

Só ele sabia o que estava prestes a acontecer, que companhia sombria estava preparada para atacar o seu reencontro. Apesar de, mais uma vez, não ser capaz de alterar o curso das suas vidas, sabia.

As sombras rodopiavam directamente por cima das suas cabeças. Tão próximas que poderia ter lhes tocado. Tão próximas que se perguntou se ela conseguiria ouvir o que sussurravam. Viu a nuvem a passar lhe pelo rosto. Por um instante, vislumbrou um lampejo de reconhecimento a crescer lhe nos olhos.

Depois mais nada, absolutamente mais nada

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 1

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Perfeitos Desconhecidos

Luce entrou de rompante no átrio iluminado a luz fluorescente do Inter­nato Sword & Cross dez minutos depois do que deveria. Uma monitora de peito cilíndrico, faces rosadas e uma prancheta com um bloco‑notas encai­xada debaixo de um bíceps de ferro estava já a dar ordens, o que significava que Luce chegara atrasada.

– Por isso recordem‑se, medicamentos, camas e vermelhos – ladrava a monitora para um grupo de três outros estudantes, todos voltados de costas para Luce. – Recordem‑se do básico e ninguém se magoa.

Luce apressou‑se a deslizar para trás do grupo. Ainda estava a tentar perceber se preenchera correctamente a pilha gigantesca de papelada, se esta guia de cabeça rapada à sua frente era um homem ou uma mulher, se haveria alguém para a ajudar a carregar este enorme saco de viagem, se os pais se iriam desfazer do seu amado Plymouth Fury logo que chegassem a casa depois de a terem largado aqui. Tinham andado a ameaçar vender o carro durante o Verão inteiro e agora tinham uma razão que nem Luce con­seguiria rebater: ninguém estava autorizado a ter um carro na nova escola de Luce. O seu novo reformatório, para ser mais precisa.

Ainda não se habituara à palavra.

– Poderia, hum, repetir isso? – perguntou à monitora. – O que era isso, medicamentos…?

– Ora, ora, vejam o que a tempestade nos trouxe – exclamou a moni­tora em voz alta.

E continuou, pronunciando lentamente:

Medicamentos. Se és um dos alunos medicados, é aqui que vens para te manteres drogada, sã de espírito, a respirar, seja lá o que for.

Mulher, decidiu Luce, estudando a funcionária. Nenhum homem seria tão malicioso ao ponto de dizer tudo aquilo num tom de voz tão sacarino.

– Já percebi. – Luce sentiu o estômago dar uma volta. – Medicamentos.

Há anos que se libertara dos medicamentos. Depois do acidente no Verão passado, o doutor Sanford, o seu especialista em Hopkinton, respon­sável pela decisão dos pais de a mandarem para o colégio interno em New Hampshire, quisera considerar a hipótese de a medicar de novo. Apesar de o ter finalmente convencido da sua quase estabilidade, fora obrigada a fazer um mês extra de psicanálise só para se manter afastada daqueles horríveis antipsicóticos.

E era por isso que estava a entrar no seu último ano de liceu no Sword & Cross, um mês inteiro depois de o ano académico ter começado. Ser uma aluna nova já era suficientemente mau e Luce sentira‑se realmente nervosa com a perspectiva de ter de ingressar numa turma onde toda a gente já estava instalada. Mas pelo aspecto da coisa nesta visita guiada, não era o único jovem a chegar hoje.

Arriscou uma olhadela para os outros três estudantes, de pé, num semicír­culo à sua volta. Na sua última escola, o colégio particular de preparação para a faculdade em Dover, fora na visita ao campus, no primeiro dia, que conhecera a sua melhor amiga, Callie. Num campus onde todos os outros alunos tinham sido praticamente desmamados juntos, o facto de Luce e Callie serem as úni­cas que não eram filhos de antigos alunos deveria ter sido suficiente. Mas as duas raparigas não demoraram muito a perceber que sentiam exactamente a mesma obsessão pelos mesmos filmes antigos, em especial pelo actor Albert Finney. Depois de descobrirem, no seu ano de caloiras, ao assistirem a Two for the Road (Caminho para Dois), que nenhuma delas conseguia cozinhar um saco de pipocas sem fazer disparar o alarme de incêndio, Callie e Luce nunca mais se tinham separado. Até que… até que teve de ser.

Hoje, ao lado de Luce, encontravam‑se dois rapazes e uma rapariga. A rapariga parecia fácil de definir, loira e de uma beleza tipo anúncio da Neutrogena, com unhas arranjadas de um rosa pastel que combinava com o dossiê de plástico.

– Chamo‑me Gabbe.

Falou de forma arrastada, lançando a Luce um grande sorriso que desapareceu com tanta rapidez como tinha surgido, antes mesmo de Luce poder dizer‑lhe o seu próprio nome. O interesse minguante da rapariga lembrou‑lhe mais uma versão sulista das miúdas de Dover do que alguém que se esperaria encontrar no Sword & Cross. Luce não conseguiu decidir se este facto era ou não reconfortante, nem conseguiu imaginar o que uma rapariga com este aspecto estaria a fazer no reformatório.

À direita de Luce estava um tipo de cabelo castanho curto, olhos casta­nhos e uma leve camada de sardas no nariz. Mas o modo como nem sequer olhou para ela e como continuou simplesmente a roer um espigão na unha do polegar deu a Luce a impressão de que, como ela, estava provavelmente ainda atordoado e embaraçado por se encontrar nesta escola.

O tipo à esquerda, por outro lado, encaixava‑se com demasiada per­feição na imagem que Luce tinha deste lugar. Era alto e magro, com um saco de DJ ao ombro, cabelo preto desgrenhado e olhos verdes grandes e encovados. Os lábios eram cheios e de um cor‑de‑rosa natural que a maioria das raparigas daria tudo para ter. Na parte de trás do pescoço, uma tatuagem preta com a forma de raios de Sol a surgirem por entre nuvens parecia quase brilhar na pele clara, erguendo‑se acima da gola da T‑shirt preta.

Ao contrário dos outros dois, quando este tipo se virou para a fitar, sustentou‑lhe o olhar e não desviou os olhos. A boca firmava‑se numa linha direita, mas os olhos eram calorosos e vivos. Olhou‑a fixamente, tão imóvel como uma escultura, o que fez com que Luce se sentisse também pregada ao chão. Susteve a respiração. Aqueles olhos eram intensos, sedutores e, bem, um pouco desarmantes.

Com alguns ruídos de um pigarrear alto, a monitora interrompeu o olhar tipo transe do rapaz. Luce corou e fingiu estar muito ocupada a coçar a cabeça.

– Os que já aprenderam como é que as coisas funcionam podem ir, depois de despejarem aqui os vossos brinquedos perigosos.

 

A funcionária fez um gesto para uma grande caixa de cartão debaixo de uma tabuleta onde se lia em grandes letras pretas objectos proibidos. – E quando digo podem ir, Todd – enganchou uma mão no ombro do miúdo sardento fazendo‑o dar um salto –, quero dizer para o ginásio para conhecerem os estudantes que foram destacados para serem os vossos guias. Tu – apontou para Luce – despeja os teus objectos e fica comigo.

Os quatro arrastaram os pés na direcção da caixa e Luce observou, desconcertada, os outros estudantes começarem a esvaziar os bolsos. A rapariga puxou de um canivete suíço cor‑de‑rosa de oito centímetros. O tipo dos olhos verdes largou com relutância uma lata de tinta em spray e um x‑acto. Até o desgraçado Todd deixou cair várias carteiras de fósforos e um pequeno recipiente com líquido para isqueiros. Luce sentiu‑se quase estúpida por não trazer qualquer objecto perigoso escondido, mas, quando viu os outros miúdos enfiarem as mãos nos bolsos e abandonarem os tele­móveis dentro da caixa, engoliu em seco.

Inclinando‑se para a frente para ler melhor a tabuleta dos objectos proibidos, percebeu que os telemóveis, os pagers e todos os dispositivos de comunicação via rádio eram estritamente interditos. Já era suficiente­mente mau não poder ficar com o carro! Luce agarrou com a mão suada o telemóvel que tinha no bolso, a sua única ligação com o mundo lá fora. Quando a monitora lhe viu a expressão do rosto, Luce recebeu algumas palmadinhas rápidas na face.

– Não me desmaies em cima, rapariga, não me pagam o suficiente para fazer reanimação. Além disso, tens direito a um telefonema uma vez por semana no átrio principal.

Um telefonema… uma vez por semana? Mas…

Olhou para o telemóvel uma última vez e viu que recebera duas novas mensagens de texto. Não parecia possível que fossem as suas duas últimas mensagens. A primeira era de Callie.

Telefona imediatamente! Vou ficar à espera toda a noite, por isso prepara‑te para as fofoquices. E lembra‑te do mantra que te dei. Vais sobreviver! A propósito, se te serve de alguma coisa, creio que toda a gente esqueceu completamente…

 

Como era típico de Callie, escrevera tanto que o telemóvel de treta de Luce cortara quatro linhas da mensagem. De certo modo, sentiu‑se quase ali­viada. Não queria ler que toda a gente da sua antiga escola esquecera já o que lhe acontecera, o que fizera para aterrar neste sítio.

Suspirou e passou para a segunda mensagem. Era da mãe, que apren­dera há poucas semanas a enviar mensagens e que certamente não sabia nada desta coisa de um telefonema uma vez por semana ou nunca aqui teria abandonado a filha. Certo?

Miúda, estamos sempre a pensar em ti. Porta‑te bem e tenta comer bastan­tes proteínas. Falaremos quando pudermos. Beijos, M&P

Com um suspiro, Luce percebeu que os pais deviam saber da regra. De que outra forma explicar as expressões abatidas quando se despedira deles aos portões do internato esta manhã, com o saco de viagem na mão? Ao pequeno‑almoço, tentara dizer uma piada sobre ir finalmente perder aquele horrível sotaque de Nova Inglaterra que apanhara em Dover, mas os pais nem sequer tinham esboçado um sorriso. Pensara que era por ainda estarem furiosos com ela. Nunca entravam naquela cena de levantar a voz, o que significava que quando Luce fazia realmente asneira eles lhe aplica­vam o velho tratamento do silêncio. Agora entendia o estranho compor­tamento da manhã: os pais estavam já de luto pela perda de contacto com a sua única filha.

– Ainda estamos à espera de uma pessoa – cantou a monitora. – Quem será?

Luce retesou‑se bruscamente, voltando à realidade da caixa dos objec­tos perigosos, que estava agora cheia até às bordas com contrabando que ela nem reconhecia. Sentia os olhos verdes do rapaz de cabelo escuro fixos nela. Ergueu a cabeça e reparou que estavam todos a olhar fixamente para ela. Era a sua vez. Fechou os olhos e abriu lentamente os dedos, deixando o telemóvel escorregar da mão e aterrar com um baque surdo e triste em cima da pilha. O som de estar completamente sozinha.

Todd e a fêmea robótica Gabbe dirigiram‑se para a porta sem olharem sequer na direcção de Luce, mas o terceiro rapaz virou‑se para a monitora.

– Posso pô‑la ao corrente de tudo – sugeriu, acenando para Luce.

– Não faz parte do nosso acordo – replicou automaticamente a funcioná­ria, como se estivesse à espera deste diálogo. – És outra vez um aluno novo… isso significa restrições de novo aluno. De volta à estaca zero. Se não gostas, devias ter pensado duas vezes antes de infringir a liberdade condicional.

O rapaz permaneceu imóvel, impassível, enquanto a monitora arras­tava Luce, que estacara à menção das palavras «liberdade condicional», em direcção ao fundo de um corredor amarelecido.

– Continuando – disse, como se nada se tivesse passado –, as camas.

Apontou lá para fora, através da janela virada a ocidente, para um edifício distante, de tijolos de betão leve. Luce viu Gabbe e Todd a encaminharem‑se lentamente para ele arrastando os pés, com o terceiro rapaz a andar com lentidão atrás, como se alcançá‑los fosse a última coisa na sua lista de prioridades.

O dormitório era quadrado e impressionante, um edifício sólido e cinzento, cujas espessas portas duplas não revelavam nada sobre a possi­bilidade de vida lá dentro. Uma grande placa de pedra estava plantada no meio do relvado inerte e Luce recordou‑se de ter visto no site as palavras dormitório pauline gravadas na placa. Ao sol esbatido da manhã pare­cia ainda mais feio do que na fotografia plana a preto e branco.

Mesmo a esta distância, Luce conseguiu avistar o bolor preto que cobria a fachada do dormitório. Todas as janelas estavam obstruídas por filas de espessas grades de aço. Semicerrou os olhos. Aquilo seria arame farpado por cima da vedação à volta do edifício?

A funcionária olhava para um gráfico, folheando o dossiê de Luce.

– Quarto sessenta e três. Põe aqui a bagagem no meu gabinete com a dos outros por agora. Podes desfazer a mala esta tarde.

Luce arrastou o saco de viagem vermelho em direcção a três outras incaracterísticas malas pretas. Depois estendeu reflexivamente a mão para o telemóvel, onde escrevia em geral as coisas que precisava de se recor­dar. Mas suspirou quando a mão vasculhou o bolso vazio e memorizou o número do quarto.

Continuava a não entender por que não podia ficar simplesmente com os pais; a casa deles em Thunderbolt ficava a menos de meia hora do Sword & Cross. Soubera tão bem voltar para casa em Savannah, onde, como a mãe costumava dizer, até o vento soprava indolentemente. O ritmo mais suave, mais lento, do estado da Geórgia condizia muito mais com Luce do que o da região de Nova Inglaterra.

Mas o Sword & Cross não se parecia em nada com Savannah. Não se parecia praticamente com nada, excepto o sítio descolorido e sem vida onde o tribunal ordenara que ela entrasse como aluna interna. Ouvira por acaso o pai a falar ao telefone com o director, assentindo com o seu ar con­fundido de professor de Biologia e a dizer: «Sim, sim, talvez seja melhor para ela ser supervisionada a toda a hora. Não, não, não quereríamos inter­ferir com o vosso sistema.»

Era evidente que o pai não percebera as condições da supervisão que iam exercer sobre a sua filha única. Este sítio parecia uma prisão de segu­rança máxima.

– E o que são, como é que disse… os vermelhos? – perguntou Luce à monitora, pronta para ser dispensada da visita guiada.

– Vermelhos – disse a funcionária, apontando um pequeno dispositivo com um cabo pendurado no tecto: uma lente com uma luz encarnada a piscar.

Luce não o vira antes, mas mal a monitora apontou para o primeiro, percebeu que se encontravam por todo o lado.

– Câmaras?

– Muito bem – retorquiu a monitora, com a voz a escorrer condescen­dência. – Pomo‑las bem à vista para vocês se lembrarem. A toda a hora, em todo o lado, estamos a vigiar‑vos. Por isso, não faças asneiras, ou seja, se conseguires.

Sempre que alguém falava a Luce como se ela fosse uma perfeita psico­pata, sentia‑se muito mais perto de acreditar que era verdade.

As recordações tinham‑na perseguido durante o Verão inteiro, nos seus sonhos e nos raros momentos em que os pais a deixavam sozinha. Alguma coisa acontecera naquela cabana e toda a gente (incluindo Luce) estava a morrer por saber o quê exactamente. A polícia, o juiz, a assistente social, todos tinham tentado forçá‑la a revelar a verdade, mas ela fazia tanto ideia do que acontecera quanto eles. Trevor e ela tinham andado na paródia a noite toda, a perseguirem‑se um ao outro até lá baixo à fila de cabanas junto ao lago, longe do resto do grupo. Tentara explicar‑lhes que fora uma das melhores noites da sua vida, até que se convertera na pior.

Passara tanto tempo a rebobinar aquela noite na cabeça, a ouvir o riso de Trevor, a sentir‑lhe as mãos muito apertadas na sua cintura e a tentar reconci­liar tudo com a sua intuição que lhe dizia que era realmente inocente.

Mas agora, todas as regras e regulamentos no Sword & Cross pareciam contrariar essa ideia, pareciam sugerir que ela era de facto perigosa e que precisava de ser controlada.

Luce sentiu uma mão firme no ombro.

– Escuta – disse a monitora. – Se te faz sentir melhor, digo‑te que estás muito longe de ser o caso pior aqui dentro.

Era o primeiro gesto compassivo que a monitora oferecia e acredi­tou que a sua intenção era realmente fazê‑la sentir‑se melhor. Mas. Fora enviada para aqui devido à morte suspeita do tipo por quem estivera lou­camente apaixonada e mesmo assim estava «muito longe de ser o caso pior aqui dentro»? Luce perguntou‑se com que outro tipo de coisas estariam exactamente a lidar no Sword & Cross.

– Muito bem, a visita de orientação terminou – concluiu a monitora. – Agora estás por tua conta. Aqui está um mapa se precisares de encontrar mais alguma coisa. – Deu a Luce uma fotocópia de um mapa tosco dese­nhado à mão e depois lançou uma olhadela ao relógio. – Tens uma hora antes da tua primeira aula, mas a minha novela começa dentro de cinco minutos, por isso – acenou com a mão para Luce –, põe‑te a andar. E não te esqueças – acrescentou, apontando uma última vez para as câmaras.

– Os vermelhos estão a vigiar‑te.

Antes de Luce poder replicar, uma rapariga magricela de cabelo escuro surgiu à sua frente e abanou‑lhe os dedos compridos na cara.

– Ooooooh – gozou a rapariga numa voz de história de fantasmas, dan­çando à volta de Luce num círculo. – Os vermelhos estão a vigiar‑tteee.

– Sai daqui, Arriane, antes que te mande fazer uma lobotomia – retor­quiu a monitora, embora se depreendesse do primeiro sorriso que mos­trava, breve mas genuíno, que sentia algum afecto grosseiro pela rapariga maluca.

Era também evidente que Arriane não lhe retribuía o amor. Fez um gesto feio para a funcionária e depois fitou Luce, desafiando‑a a mostrar‑se ofendida.

– E só por isso – afirmou a monitora, registando rapidamente um apontamento furioso no seu bloco – já ganhaste a tarefa de mostrares as instalações aqui à pequena «Miss Sunshine» radiosa.

Apontou para Luce, que parecia tudo menos radiosa com os seus jeans pretos, botas pretas e top preto. Na secção de «Regras de vestuário», o site do Sword & Cross afirmara alegremente que, desde que os estudantes se comportassem bem, podiam vestir‑se como quisessem, com apenas duas pequenas condições: o estilo devia ser modesto e a cor devia ser preta. Uma grande liberdade.

A camisola demasiado grande, de gola subida, que a mãe de Luce a forçara a vestir de manhã não favorecia nada as suas curvas e até o seu melhor traço fisionómico desaparecera: o cabelo basto e preto, que costu­mava chegar‑lhe à cintura, fora quase completamente rapado. O fogo na cabana deixara‑lhe o couro cabeludo chamuscado e a linha do cabelo cheia de falhas, por isso, após a longa viagem silenciosa de Dover até casa, a mãe plantara Luce na banheira, trouxera a máquina de barbear eléctrica do pai e, sem dizer uma palavra, rapara‑lhe a cabeça. Durante o Verão, o cabelo crescera‑lhe um pouco, só o suficiente para as ondas outrora invejáveis lhe girarem em curvas maljeitosas logo abaixo das orelhas.

Arriane avaliou‑a, batendo com um dedo nos lábios pálidos.

– Perfeito – exclamou, avançando e enfiando o braço no de Luce. – Estava justamente a pensar que andava a precisar de uma escrava nova.

A porta do átrio abriu‑se de par em par e o miúdo alto dos olhos verdes entrou. Abanou a cabeça e disse para Luce:

– Este sítio não se ensaia nada em nos revistar de alto a baixo. Por isso, se trazes quaisquer outros objectos perigosos – ergueu uma sobrancelha e despejou uma mão‑cheia de coisas irreconhecíveis na caixa –, poupa‑te a essa maçada.

Atrás de Luce, Arriane riu‑se entredentes. A cabeça do rapaz ergueu‑se com rapidez e, quando os olhos registaram a presença de Arriane, abriu a boca e depois fechou‑a, como se não tivesse a certeza de como prosseguir.

– Arriane – disse calmamente.

– Cam – respondeu ela.

– Conhece‑lo? – segredou Luce, perguntando‑se se, nos reformatórios, existiriam os mesmos tipos de cliques que havia nos colégios particulares como o de Dover.

– Não mo recordes – retorquiu Arriane, arrastando Luce pela porta fora, para a manhã cinzenta e encharcada.

As traseiras do edifício principal davam para um passeio desgastado que contornava um campo de jogos malcuidado. A relva estava tão alta que mais parecia um baldio do que o relvado de uma escola, mas um placar de resultados desbotado e uma pequena pilha de bancos de madeira provava o contrário.

Para lá do relvado erguiam‑se quatro edifícios de aspecto severo: o dor­mitório de tijolos de betão leve na extremidade esquerda, uma enorme igreja antiga e feia na extremidade direita, e duas outras estruturas compri­das no meio do que Luce calculou serem as salas de aula.

Era tudo. O seu mundo inteiro estava reduzido à visão triste que tinha diante dos olhos.

Arriane virou imediatamente à direita saindo do caminho e condu­ziu Luce ao campo relvado, subindo para cima de uma das bancadas de madeira ensopadas.

O cenário correspondente em Dover era sobretudo o de atletas a treinarem‑se para as universidades de maior prestígio do país, por isso Luce evitara sempre andar por lá. Mas este campo vazio, com as suas bali­zas empenadas e enferrujadas, contava uma história muito diferente. Uma história que Luce não percebia tão facilmente. Três urubus picavam lá em cima e um vento sombrio fustigava os ramos despidos dos carvalhos. Luce escondeu o queixo na camisola de gola subida.

– Entããooo – disse Arriane. – Agora já conheces o Randy.

– Pensei que se chamava Cam.

– Não estamos a falar dele – replicou Arriane com rapidez. – Refiro‑me ao homem‑mulher ali dentro. – Arriane sacudiu a cabeça na direcção do gabinete onde tinham deixado a monitora em frente da televisão. – O que achas: gajo ou gaja?

– Hum, gaja? – respondeu Luce hesitante. – Isto é um teste?

Arriane abriu‑se num sorriso.

– O primeiro de muitos. E passaste. Pelo menos, creio que passaste. O sexo da maior parte do corpo docente aqui é um debate contínuo em toda a escola. Não te preocupes, hás‑de aprender.

Luce calculou que Arriane estava a dizer uma piada, e nesse caso porreiro. Mas tudo isto representava uma enorme diferença em relação a Dover. No seu antigo colégio, os futuros senadores de brilhantina e gra­vata verde tinham praticamente gotejado pelos corredores com a quietude distinta que o dinheiro parecia projectar em tudo.

Com muita frequência, os outros miúdos de Dover atiravam a Luce um olhar de esguelha do tipo «não sujes as paredes brancas com as pontas dos teus dedos». Tentou imaginar Arriane em Dover: a preguiçar em cima dos bancos, a dizer uma piada grosseira com a sua voz mordaz. Luce tentou imagi­nar o que Callie pensaria de Arriane. Não havia ninguém como ela em Dover.

– Muito bem, despeja lá – ordenou Arriane.

Deixando‑se cair com ruído no banco do topo e fazendo sinal a Luce para se juntar a ela, perguntou:

– O que fizeste para vir para aqui?

O tom de Arriane era brincalhão, mas de repente Luce teve de se sen­tar. Era ridículo, mas quase esperara chegar ao fim do seu primeiro dia de escola sem que o passado a apanhasse de surpresa e lhe roubasse a ténue fachada de calma. Claro que as pessoas aqui iam querer saber.

Sentiu o sangue a latejar‑lhe nas têmporas. Acontecia sempre que ten­tava lembrar‑se, realmente lembrar‑se, daquela noite. Nunca deixara de se sentir culpada pelo que acontecera a Trevor, mas tentava também com muita força não se deixar afundar nas sombras, que por esta altura eram as únicas coisas de que conseguia lembrar‑se em relação ao acidente. Aquelas coisas escuras e indefiníveis de que nunca podia falar a ninguém.

Bem, não era bem assim: começara a falar a Trevor da peculiar presença que sentira nessa noite, das formas retorcidas que pendiam sobre as suas cabeças, ameaçando arruinar a noite perfeita. Claro que nessa altura já era demasiado tarde. Trevor desaparecera, o corpo queimado e irreconhecível, e Luce era… era mesmo… culpada?

Ninguém sabia das formas lúgubres que via por vezes na escuridão. Apareciam‑lhe desde sempre. Iam e vinham há tanto tempo que Luce já nem sequer se lembrava da primeira vez que as vira. Mas recordava‑se da primeira vez que percebera que as sombras não surgiam a toda a gente, ou, na verdade, não apareciam a mais ninguém senão a ela. Quando tinha sete anos, a família estava de férias em Hilton Head e fora dar um passeio de barco com os pais. Era praticamente crepúsculo quando as sombras tinham começado a rolar por cima da água e ela virara‑se para o pai e perguntara: «O que fazem eles quando aparecem, papá? Por que não tens medo dos monstros?»

Não havia monstros, garantiram‑lhe os pais, mas a repetida insistência de Luce sobre a presença de alguma coisa oscilante e sombria valera‑lhe várias consultas com o oftalmologista da família, depois óculos, a seguir consultas com o médico dos ouvidos após ter cometido o erro de des­crever o som rouco e sibilante que as sombras às vezes emitiam, depois tratamento psiquiátrico, a seguir mais tratamento psiquiátrico e, por fim, a prescrição de medicação antipsicótica.

Mas nada as fez desaparecer.

Quando completou catorze anos, Luce recusou tomar a medicação. Foi nessa altura que descobriram o doutor Sanford e o colégio interno de Dover ali perto. Apanharam o avião para New Hampshire e o pai condu­ziu o carro alugado por um carreiro longo e às curvas até uma mansão no topo de uma colina, uma mansão que se chamava Shady Hollows. Plantaram Luce em frente de um homem com uma bata de laboratório e perguntaram‑lhe se ainda tinha as suas «visões». As palmas das mãos dos pais suavam a agarrar‑lhe as mãos, as sobrancelhas franzidas com medo que existisse alguma coisa terrivelmente errada com a sua filha.

Ninguém deu um passo em frente e avisou que, se ela não dissesse ao doutor Sanford o que todos queriam que dissesse, poderia ficar a conhe­cer Shady Hollows muito melhor. Quando mentiu e agiu normalmente, permitiram‑lhe matricular‑se em Dover e só tinha de visitar o doutor San­ford uma vez por mês.

Autorizaram Luce a deixar de tomar os horríveis comprimidos logo que começou a fingir que já não via as sombras. Mas continuava a não con­seguir controlar a sua aparição. Tudo o que sabia era que o catálogo mental dos sítios onde lhe tinham surgido no passado – florestas densas, águas escuras – se transformara nos sítios que evitava a todo o custo. Tudo o que sabia era que, quando as sombras surgiam, eram em geral acompanhadas por um arrepio frio sob a pele, uma sensação nauseante que não se parecia com nenhuma outra coisa.

Luce escarranchou‑se em cima de um dos bancos e agarrou as têmporas entre os polegares e os dedos indicadores. Se queria chegar ao fim do dia, tinha de empurrar o passado para os recessos da sua mente. Não aguentava explorar a memória daquela noite, por isso não ia de forma alguma ventilar todos os pormenores horrendos a uma desconhecida esquisita e maníaca.

Em vez de responder, observou Arriane que estava deitada nas banca­das, com um par de enormes óculos escuros que lhe cobriam a maior parte do rosto. Era difícil dizer, mas devia ter estado também a fitar Luce porque, passado um segundo, levantou‑se de um salto do banco e sorriu.

– Corta‑me o cabelo como o teu – pediu.

– O quê? – admirou‑se Luce. – O teu cabelo é lindo.

Era verdade: Arriane tinha as madeixas compridas e bastas de que Luce sentia tão desesperadamente a falta. Os caracóis pretos soltos cintila­vam ao sol, com uma suave tonalidade avermelhada. Luce enrolou o cabelo para trás das orelhas, apesar de não estar ainda suficientemente comprido e tombar de novo para a frente.

– Lindo e uma porcaria – retorquiu Arriane. – O teu é sexy, escadeado. E quero‑o.

– Oh, hum, está bem – disse Luce.

Aquilo seria um elogio? Não sabia se deveria sentir‑se lisonjeada se desanimada pela maneira como Arriane presumia que podia ter tudo o que queria, mesmo que pertencesse a outra pessoa.

– Onde vamos arranjar…

– Ta‑da! – Arriane enfiou a mão no seu saco e puxou o canivete suíço cor‑de‑rosa que Gabbe atirara para a caixa dos objectos perigosos. – Que é? – perguntou, vendo a reacção de Luce. – Apareço sempre com os meus dedinhos cleptomaníacos nos dias em que chegam novos estudantes. Só essa ideia me anima e me faz aguentar a vida de cão no campo de concen­tração de Sword & Cross… quero dizer… colónia de férias de Verão.

– Passaste o Verão todo… aqui? – Luce estremeceu.

– Ah! Falaste como uma verdadeira caloira. Estás provavelmente à espera de férias na Primavera. – Atirou a Luce o canivete suíço. – Não nos deixam sair deste inferno. Nunca. Agora corta.

– E então os vermelhos? – questionou Luce, olhando em volta com o canivete na mão.

Devia haver câmaras algures aqui fora. Arriane abanou a cabeça.

– Recuso‑me a associar‑me com mariquinhas. Consegues fazer isto ou não?

Luce assentiu.

– E não me digas que nunca cortaste cabelos antes. – Arriane voltou a tirar o canivete a Luce, puxou a tesoura para fora e passou‑lha. – Nem mais uma palavra até me dizeres que estou com um aspecto fantástico.

No «cabeleireiro» da banheira dos pais, a mãe de Luce esticara os res­tos do cabelo comprido apertando‑os num rabo‑de‑cavalo trapalhão antes de rapar aquilo tudo. Luce tinha a certeza de que existia um método mais estratégico de cortar cabelo, mas tendo evitado cortar o cabelo a vida inteira, o rabo‑de‑cavalo ceifado era praticamente tudo o que sabia fazer. Apanhou o cabelo de Arriane com as mãos, apertou‑o com uma fita elástica que tinha no pulso, segurou com firmeza a pequena tesoura e começou a retalhar.

O rabo‑de‑cavalo caiu‑lhe aos pés e Arriane soltou uma exclamação abafada e virou‑se precipitadamente. Pegou no cabelo e ergueu‑o para o Sol. O coração de Luce retraiu‑se com a cena. Ainda sofria por causa do seu próprio cabelo perdido e de todas as outras perdas que simbolizava. Mas Arriane deixou apenas um sorriso fino espalhar‑se pelos lábios. Correu os dedos pelo rabo‑de‑cavalo uma vez e depois largou‑o dentro do saco.

– Fantástico! Continua.

– Arriane… – sussurrou Luce não conseguindo calar‑se. – O teu pes­coço. Está todo…

– Cheio de marcas de cicatrizes? – terminou Arriane. – Podes dizê‑lo.

A pele do pescoço de Arriane, da parte de trás da orelha esquerda até à clavícula, apresentava‑se denteada, jaspeada e reluzente. Luce pensou em Trevor, naquelas fotos horríveis. Até os seus próprios pais se tinham recu­sado a olhar para ela depois de as verem. Agora estava a ter dificuldade em olhar para Arriane.

Arriane agarrou na mão de Luce e comprimiu‑a contra a pele. Estava quente e fria ao mesmo tempo. Era macia e áspera.

– Não tenho medo disto – disse Arriane. – Tu tens?

– Não – retorquiu Luce, embora desejasse que Arriane afastasse a mão para poder afastar a sua também. O seu estômago agitou‑se quando pen­sou se seria também essa a sensação da pele de Trevor.

– Tens medo de quem és realmente, Luce?

– Não – respondeu Luce de novo, com rapidez.

Devia ser muito óbvio que estava a mentir. Fechou os olhos. Tudo o que queria do Sword & Cross era um recomeço, um sítio onde as pessoas não olhassem para ela da maneira que Arriane estava a olhar neste preciso momento. Aos portões do internato nessa manhã, quando o pai lhe sus­surrara o lema da família Price ao ouvido – «Os Price nunca se abatem» –, parecia ter sido possível, mas Luce sentia‑se já tão abatida e vulnerável. Puxou a mão, soltando‑se.

– Como é que isso aconteceu? – inquiriu, olhando para o chão.

– Recordas‑te de que não te pressionei quando te fechaste em copas em relação ao que fizeste para ter vindo para aqui? – perguntou Arriane, erguendo as sobrancelhas.

Luce assentiu.

Arriane fez um gesto para a tesoura.

– Dá uns retoques aí atrás, está bem? Faz com que eu fique realmente bonita. Faz com que fique parecida contigo.

Mesmo com um corte exactamente igual, Arriane só pareceria uma versão muito subnutrida de Luce. Enquanto Luce tentava acertar o pri­meiro corte de cabelo que realizava, Arriane aprofundou as complexidades da vida no Sword & Cross.

– Aquele bloco celular ali é o Augustine. É onde temos os nossos cha­mados eventos sociais às quartas‑feiras à noite. E todas as nossas aulas – acrescentou, apontando para um edifício da cor de dentes amarelados, dois edifícios à direita do dormitório.

Parecia ter sido desenhado pelo mesmo sádico que projectara o Pau­line. Era soturnamente rectangular, como uma fortaleza, fortificado com o mesmo arame farpado e grades nas janelas. Uma névoa cinzenta de aspecto pouco natural encobria as paredes como musgo, tornando impossível ver se lá estava alguém.

– Aviso‑te já – continuou Arriane. – Vais detestar as aulas aqui. Não serias humana se não detestasses.

– Porquê? O que têm de mal?

Talvez Arriane não gostasse simplesmente da escola em geral. Com o verniz de unhas preto, lápis de olhos preto e o saco preto que parecia só suficientemente grande para conter o seu novo canivete suíço, não tinha propriamente um aspecto estudioso.

– As aulas aqui não têm alma – replicou Arriane. – Pior, despojam‑te da tua alma. De entre os oitenta miúdos que estão neste sítio, diria que só há cerca de três almas remanescentes. – Ergueu os olhos. – Não declaradas, de qualquer maneira…

Não parecia muito promissor, mas Luce ficou obcecada com outra parte da resposta de Arriane:

– Espera aí, só há oitenta miúdos nesta escola inteira?

No Verão antes de ir para Dover, Luce lera atentamente o grosso guia dos futuros alunos, decorando todas as estatísticas. Porém, tudo o que aprendera até agora sobre o Sword & Cross a surpreendera, fazendo‑a per­ceber que vinha para o reformatório completamente despreparada.

Arriane assentiu com a cabeça, fazendo Luce cortar acidentalmente um pedaço de cabelo que tivera intenção de deixar. Ups. Esperava que Arriane não desse por isso, ou talvez pensasse apenas que era escadeado.

– Oito turmas, dez miúdos em cada. Ficamos a conhecer a merda de todos muito rapidamente – esclareceu Arriane. – E vice‑versa.

– Calculo que sim – concordou Luce, mordendo o lábio.

Arriane estava a brincar, mas Luce perguntou‑se se estaria aqui sentada com aquele sorrisinho calmo nos olhos azul pastel se soubesse a natureza exacta da história de Luce. Quanto mais tempo Luce conseguisse manter o seu passado oculto, melhor para ela.

– E vais querer afastar‑te dos casos difíceis.

– Casos difíceis?

– Os miúdos da pulseira electrónica – respondeu Arriane. – Cerca de um terço do corpo estudantil.

– E esses são os que…

– Não vais querer meter‑te com eles. Confia em mim.

– Ora, o que fizeram eles? – perguntou Luce.

Por mais que Luce quisesse manter a sua própria história em segredo, não gostava da maneira como Arriane a estava a tratar, como se fosse algum tipo de ingénua. O que quer que esses miúdos tivessem feito não poderia ser muito pior do que o que toda a gente lhe dizia que ela fizera. Ou podia? No final de contas, não sabia praticamente nada sobre estas pessoas e sobre este sítio. As possibilidades provocaram‑lhe um medo frio e cinzento na boca do estômago.

– Oh, sabes como é – retorquiu Arriane em tom arrastado. – Cúmpli­ces de actos terroristas. Cortaram os pais aos pedacinhos e assaram‑nos num espeto. – Virou‑se e piscou o olho a Luce.

– Cala‑te.

– Estou a falar a sério. Esses psicopatas têm restrições muito maiores do que o resto dos malandros. Chamamos‑lhes algemados.

Luce riu‑se com o tom dramático de Arriane.

– O teu corte de cabelo terminou – declarou, passando os dedos pelo cabelo de Arriane para o abrir um pouco. Na realidade ficara bastante fixe.

– Óptimo.

Virou‑se de frente para Luce. Quando passou os dedos pelo cabelo, as mangas da camisola preta escorregaram para trás nos antebraços e Luce avistou uma pulseira preta, salpicada de filas de pregos prateados e, no outro pulso, outra pulseira que parecia muito mais… mecânica. Arriane apanhou‑a a observá‑la e ergueu as sobrancelhas com ar diabólico.

– Bem te disse. A porra de uns psicopatas completos. – Sorriu. – Vamos. Vamos ao resto da visita guiada.

Luce não tinha por onde escolher. Desceu das bancadas atrás de Arriane, agachando‑se quando um dos urubus se precipitou perigosamente baixo. Arriane, que não pareceu reparar, apontou para a igreja coberta de líquenes na extremidade direita do relvado.

– Ali fica o nosso ginásio moderníssimo – disse, assumindo o tom de voz nasalada de um guia turístico. – Sim, sim, para olhos inexperientes parece uma igreja. Costumava ser. Estamos numa espécie de inferno arqui­tectónico em segunda mão aqui no Sword & Cross. Há alguns anos, um psiquiatra louco por exercícios calisténicos apareceu por aí a arengar sobre adolescentes demasiado medicados que arruinavam a sociedade. Doou uma merda de uma tonelada de dinheiro para converterem a igreja num ginásio. Agora as autoridades reinantes pensam que podemos fazer exer­cício e descarregar as nossas «frustrações» de uma «forma mais natural e produtiva».

Luce gemeu. Sempre odiara aulas de ginástica.

– És cá das minhas – apiedou‑se Arriane. – Diante, a professora de Educação Física, é horrííível.

Luce correu para acompanhar Arriane e observou o resto das instala­ções. O pátio relvado de Dover era tão bem tratado, aparado e salpicado, a intervalos regulares, de árvores cuidadosamente desbastadas. O Sword & Cross parecia ter sido largado e abandonado no meio de um pântano. Chorões baloiçavam até ao chão, a trepadeira crescia ao longo dos muros e a cada três passos que davam esguichava líquido.

E não era só o aspecto que o sítio tinha. Todas as inspirações de ar húmido pareciam colar‑se aos pulmões de Luce. O próprio acto de respirar no Sword & Cross fazia‑a sentir que estava a afundar‑se em areias movediças.

– Parece que os arquitectos ficaram com um grande bloqueio quando quiseram readaptar o estilo dos velhos edifícios da academia militar. Con­cluindo, acabámos com uma coisa que é meio penitenciária, meio espaço de torturas medievais. E sem jardineiro – explicou Arriane, pontapeando uns limos que se tinham agarrado às suas botas de combate. – Que nojo. Oh, e ali é o cemitério.

Luce seguiu o dedo apontado de Arriane até ao lado esquerdo mais distante do relvado, a seguir ao dormitório. Um manto ainda mais espesso de névoa pairava sobre a parcela de terreno amuralhada. Estava rodeado em três lados por uma densa mata de carvalhos. Não conseguia ver o cemi­tério propriamente dito, que parecia mergulhar praticamente abaixo da superfície do solo, mas chegou‑lhe às narinas o cheiro de podridão e ouviu o coro de cigarras a zumbir nas árvores. Durante um segundo, pensou ver o adejar escuro das sombras, mas pestanejou e desapareceram.

– Aquilo é um cemitério?

– Pois. Isto dantes era uma academia militar, há muito tempo, na época da Guerra Civil. Por isso era ali que enterravam todos os mortos. É sinistro, daqueles que dá vontade de fugir. E, meu Deus – continuou Arriane, exage­rando um sotaque sulista fingido –, tresanda à distância. – Depois piscou o olho para Luce. – Costumamos lá fazer muitas festas.

Luce olhou para Arriane para ver se ela estava a gozar. Arriane enco­lheu apenas os ombros.

– Está bem, foi só uma vez. E foi apenas depois de uma orgia de fárma­cos realmente grande.

Ora aqui estava uma expressão que Luce reconhecia.

– Ahah! – Arriane riu‑se. – Acabei de ver uma luzinha a acender‑se aí em cima. Assim está alguém em casa. Bem, Luce, minha, podes ter ido a festas de colégio interno, mas nunca viste uma festa organizada por miúdos do reformatório.

– Qual é a diferença? – perguntou Luce, tentando contornar o facto de nunca ter realmente assistido a uma grande festa em Dover.

– Vais ver. – Arriane fez uma pausa e virou‑se para Luce. – Vens ter comigo esta noite e divertimo‑nos um bocado, está bem? – Surpreendeu Luce ao pegar‑lhe na mão. – Prometido?

– Mas pensei que tivesses dito que me devia afastar dos casos difíceis –troçou Luce.

– Regra número dois: não ligues ao que eu digo! – Arriane riu‑se, aba­nando a cabeça. – Sou oficialmente louca!

Começou a correr de novo e Luce arrastou‑se atrás dela.

– Espera, qual era a regra número um?

– Acompanha‑me!

• •

Quando dobraram a esquina do bloco de tijolos de betão leve onde fica­vam as salas de aula, Arriane derrapou e parou.

– Põe um ar cool – disse.

Cool – repetiu Luce.

Todos os outros estudantes pareciam estar agrupados à volta das árvo­res estranguladas pela trepadeira kudzu à porta do Augustine. Ninguém parecia propriamente feliz por estar ali fora, mas ninguém parecia também preparado para entrar já.

Não houvera muitas normas de vestuário em Dover, por isso Luce não estava habituada à uniformidade que conferiam ao corpo estudantil. Por outro lado, no entanto, embora todos os miúdos vestissem aqui os mesmos jeans pretos, T‑shirt preta de gola subida e camisola preta atada por cima dos ombros ou à cintura, havia mesmo assim diferenças substanciais na forma como se apresentavam.

Um grupo de raparigas tatuadas, de pé, em círculo e de braços entrela­çados, usava braceletes que lhes chegavam aos cotovelos. Os lenços pretos estampados no cabelo recordaram a Luce um filme que vira certa vez sobre as raparigas dos gangues das motos. Alugara o filme porque pensara: O que podia ser mais fixe do que um gangue motoqueiro só de raparigas? Os olhos de Luce cruzaram‑se com os de uma das raparigas. A mirada de soslaio dos olhos felinos da rapariga, delineados a preto, fez com que Luce alterasse rapidamente a trajectória do seu olhar.

Um rapaz e uma rapariga, de mãos dadas, tinham cosido lantejoulas com a forma de caveiras sobre ossos cruzados nas costas das suas camisolas pretas. De poucos em poucos segundos, um deles puxava o outro para um beijo na testa, no lóbulo da orelha, no olho. Quando se abraçaram, Luce pôde ver que ambos usavam a pulseira electrónica a piscar. Tinham um aspecto um pouco grosseiro, mas era evidente que estavam muito apaixo­nados. Sempre que lhes via os piercings das línguas a faiscar, Luce sentia um aperto de solidão no peito.

Atrás dos namorados, achava‑se um grupo de rapazes loiros encostados à parede. Todos vestiam a camisola apesar do calor. E todos tinham cami­sas brancas de bom algodão por baixo, os colarinhos engomados muito esticados. As calças pretas caíam perfeitas sobre as gáspeas dos sapatos bem engraxados. De todos os estudantes ali no pátio, estes rapazes pare­ciam ser a coisa mais parecida com os alunos de Dover. Mas, observando‑os melhor, Luce percebeu rapidamente que eram diferentes dos rapazes que conhecera. Rapazes como Trevor.

Só pelo simples facto de se encontrarem em grupo, estes tipos irradia­vam um género especial de dureza. Estava ali mesmo à vista, na expressão dos seus olhos. Era difícil explicar, mas Luce compreendeu de repente que, tal como ela, toda a gente nesta escola tinha um passado. Toda a gente aqui tinha provavelmente segredos que não queria partilhar. Mas não conseguiu perceber se esta tomada de consciência a fazia sentir mais ou menos isolada.

Arriane notou os olhos de Luce a percorrerem o resto dos miúdos.

– Todos fazemos os possíveis por chegar ao fim do dia – disse, enco­lhendo os ombros. – Mas caso não tenhas visto os abutres a voar baixo, este sítio fede bastante a morte.

Sentou‑se num banco debaixo de um chorão e deu uma palmadinha ao lado para Luce. Luce limpou um monte de folhas molhadas e apodre-cidas, mas, mesmo antes de se sentar, reparou noutra violação das regras de vestuário.

Uma violação muito atractiva das normas de vestuário.

O rapaz usava um lenço de um vermelho‑vivo ao pescoço. Não fazia frio absolutamente nenhum cá fora, mas ele envergava um blusão de cabe­dal preto de motociclista por cima da camisola preta. Talvez fosse por ser a única mancha de cor no pátio, mas Luce não conseguiu despegar os olhos dele. De facto, tudo o resto empalidecia tanto por comparação que, durante um longo momento, Luce esqueceu onde estava.

Interiorizou o cabelo loiro‑escuro e o bronzeado correspondente. As maçãs do rosto altas, os óculos de sol escuros que lhe cobriam os olhos, a forma suave dos lábios. Em todos os filmes que Luce vira e em todos os livros que lera, o protagonista romântico era espantosamente atraente, à excepção de um pequeníssimo defeito. O dente lascado, o remoinho no cabelo, o sinal na face esquerda. Sabia porquê: se o herói fosse demasiado imaculado, arriscaria tornar‑se inacessível. Mas acessível ou não, Luce tivera sempre um fraco pelo extraordinariamente belo. Como este tipo.

Ele apoiou‑se contra o edifício com os braços cruzados de forma leve no peito. E, por uma fracção de segundo, Luce teve uma visão fulgurante de si própria cingida por aqueles braços. Abanou a cabeça, mas a imagem continuou tão nítida que quase se precipitou para ele.

Não. Aquilo era uma loucura. Certo? Mesmo numa escola repleta de doidos, Luce estava bem ciente de que o seu impulso era louco. Nem sequer o conhecia. Estava a falar com um miúdo mais baixo, de rastas, e com um sorriso que mostrava os dentes todos. Estavam ambos a rir‑se muito, de forma genuína, o que, estranhamente, provocou inveja a Luce. Tentou recordar‑se de há quanto tempo não se ria daquela maneira.

– Chama‑se Daniel Grigori – informou Arriane, inclinando‑se e lendo‑lhe os pensamentos. – Já percebi que atraiu a atenção de alguém por aqui.

– Isso é dizer pouco – concordou Luce, embaraçada, quando percebeu o que Arriane devia estar a pensar dela.

– Pois, bem, se gostamos daquele tipo de coisa.

– O que há que não se goste? – perguntou Luce, incapaz de impedir as palavras de lhe saírem da boca.

– O amigo dele chama‑se Roland – explicou Arriane, acenando na direcção do miúdo das rastas. – É fixe. O género de tipo que consegue deitar a mão a coisas, estás a ver?

Não propriamente, pensou Luce, mordendo o lábio.

– Que género de coisas?

Arriane encolheu os ombros, utilizando o canivete suíço roubado para serrar um fio de um rasgão nos jeans pretos.

– Oh, coisas. Coisas do tipo pede‑e‑receberás.

– E então Daniel? – perguntou Luce. – Qual é a história dele?

– Oh, ela não desiste. – Arriane riu‑se e depois pigarreou. – Na reali­dade, ninguém sabe. Ele agarra‑se muito à sua imagem de homem mistério. Pode muito bem ser o típico idiota do reformatório.

– Conheço muito bem os idiotas – declarou Luce, embora, mal as pala­vras lhe tivessem saído da boca, desejasse poder retirar o que dissera.

Depois do que acontecera a Trevor, fosse o que fosse que tivesse acon­tecido, devia ser a última pessoa a emitir juízos de valor. Mas, mais do que isso, nas raras ocasiões em que fazia a mais pequena referência a essa noite, o dossel preto movediço das sombras regressava, quase como se estivesse de novo no lago.

Lançou outra olhadela a Daniel. Ele tirou os óculos, enfiou‑os dentro do blusão e depois virou‑se para a observar.

O seu olhar encontrou‑se com o dela e Luce viu‑lhe os olhos a arregalarem‑se e depois a semicerrarem‑se rapidamente com o que parecia ser surpresa. Mas não… era mais do que isso. Quando os olhos de Daniel se cruzaram com os dela, sentiu a respiração ficar presa na garganta. Reconhecia‑o de algum lugar.

Mas recordar‑se‑ia se tivesse conhecido alguém como ele. Recordar‑se‑ia de se sentir tão absolutamente abalada como se sentia neste preciso momento.

Percebeu que ainda olhavam um para o outro quando Daniel lhe atirou um sorriso. Uma onda de calor disparou por ela acima e teve de se agarrar ao banco para se apoiar. Sentiu os lábios a abrirem‑se para lhe devolver o sorriso, mas então ele ergueu a mão no ar.

E fez‑lhe um gesto obsceno com o dedo do meio.

Luce ofegou e baixou os olhos.

– Que é? – perguntou Arriane, que não dera pelo que se passara. – Não interessa. Não temos tempo. Pressinto a campainha.

A campainha tocou como se na hora H e todo o corpo estudantil começou a arrastar‑se lentamente para dentro do edifício. Arriane puxava a mão de Luce e arrazoava indicações sobre onde se encontrarem a seguir. Mas Luce estava ainda tonta por um perfeito desconhecido lhe ter levan­tado o dedo. O seu delírio momentâneo por Daniel desaparecera e agora havia uma única coisa que queria saber: Qual era o problema daquele tipo?

Mesmo antes de mergulhar na sua primeira aula, atreveu‑se a olhar para trás. O rosto dele era inexpressivo, mas não havia nada que enganar: seguia‑a com os olhos.

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SOBRE o AUTOR:

Lauren Kate

Nascida e criada em Dallas, Lauren Kate estudou em Atlanta, mas foi em Nova Iorque que se iniciou na escrita. Depois da publicação de The Betrayal of Natalie Hargrove, descobriu o êxito com Anjo Caído (Fallen, no título... VISITAR PAGINA SOBRE O(a) AUTOR(a)

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COMENT&Aactute;RIOS

  1. #912 por Catarina Santos em 27 de Julho de 2011

    Olá eu já li o livro achei dos melhores que alguma vez li, e eu devoro livros. estou muito ansiosa para que saia o segundo. se alguem souber quando sai exactamente por favor deixem aqui um comentario porque eu ja nao consigo esperar muito mais, é um livro que nos fixa bastante e nao conseguimos parar de ler. eu li-o em 3 horas

  2. #940 por Catarina em 12 de Agosto de 2011

    O livro é fantástico. um dos melhores romances do género. Cheio de suspense, romance e acção. Estou ansiosa por ler o resto da colecção

  3. #1115 por maria salete em 13 de Novembro de 2011

    ola queria muito saber como e´esse livro se ele e´legal e se vale a pena comprar ele sobre o que é a historia

  4. #1141 por Telmo Tenente em 17 de Novembro de 2011

    Este livro é muito bom, dos melhores do género.

  5. #1205 por monik em 27 de Novembro de 2011

    fantastico o 3º so no final do ano ke vem bolas tanto tempo nao sera possivel mais cedo

  6. #36968 por Livros Fantásticos | Revelado o elenco de FALLEN em 25 de Abril de 2014

    [...] os que se apaixonaram pela saga ANJO CAÍDO, de Lauren Kate, e que seguem com ardente entusiasmo a notícia da sua adaptação ao cinema, aqui [...]

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