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Doce Valentine

Adriana Trigiani

Vai caber a Valentine Roncalli de 33 anos, a talentosa e determinada aprendiza da avó, a mestra Teodora Angelini, trazer a velha empresa familiar para o século XXI e resgatá-a da ruína. Enquanto tenta conciliar o seu incipiente romance com o atraente chef Roman Falconi, o seu dever para com...
COMPRAR 19,03€ P.V.P:
CARACTERISTICAS GERAIS:
  • n° PAGS:384
  • ISBN:978-989-657-029-3
  • DIMENSÃO:15,5 x 23,5 cm
EXCERTO do 1? CAPÍTULO:

Não sou a irmã bonita. Nem sequer sou a irmã inteligente. Sou a engraçada. Chamaram-me isso durante tanto tempo, durante tantos anos, na verdade, que quase passei a considerá-lo o meu nome: Engraçada.

Se tivesse de morrer, e acreditem, não quero, mas se tivesse de escolher um local, gostaria de morrer aqui na salinha das senhoras do Leonard’s, em Great Neck. São os espelhos. Fico superelegante, mesmo a três dimensões. Não sou cientista, mas há qualquer coisa na inclinação do espelho de corpo inteiro, no brilho dos balcões de mármore azul e na luz dourada dos lustres em pavé que cria uma ilusão de óptica, transformando o meu reflexo num pauzinho comprido, magro e rosa-pálido.

Esta é a minha oitava festa (terceira como convidada) no Leonard’s La Dolce Vita, o nome formal para a fábrica de casamentos preferida da nossa família em Long Island. Todas as pessoas que conheço casaram aqui ou, pelo menos, todos os meus familiares.

As minhas irmãs e eu debutámos em 1984 como meninas das flores da nossa prima Mary Theresa, que tinha mais aias do que convidados nas mesas. O casamento da nossa prima pode ter sido uma troca de votos sagrada entre um homem e uma mulher, mas foi também um espectáculo, com figurinos, coreografias e iluminação especial, tornando a noiva uma estrela e o noivo o operador de câmara.

Mary T. considera-se realeza ítalo-americana, pelo que teve os Cavaleiros de Colombo a fazerem um arco de espadas aquando da nossa entrada no Starlight Venetian Room. Os cavaleiros tinham um aspecto de realeza nos seus smokings, faixas vermelhas, capas pretas, tricórnios com penas de marabu. Ocupei o meu lugar atrás das outras raparigas na procissão enquanto a banda tocava Nobody Does It Better, mas virei-me para fugir quando os cavaleiros levantaram as suas espadas para formar um dossel. A tia Feen agarrou-me e deu-me um empurrão. Fechei os olhos, agarrei o meu buquê e corri sob as espadas como se quisesse salvar a minha vida.

Apesar do meu medo de objectos aguçados e metálicos, apaixonei-me pelo Leonard’s naquele dia. Era o meu primeiro baile italiano formal. Mal podia esperar para crescer e imitar a minha mãe e as amigas que bebiam harvey wallbangers1 em copos de cristal cobertas de lantejoulas prateadas da cabeça aos pés. Quando eu tinha nove anos, achava que o Leonard’s tinha classe. Não importa que de Northern Boulevard pareça um casino de estuque branco da Riviera francesa, deslocado em Long Island. Para mim, o Leonard’s era um sítio mágico.

A experiência La Dolce Vita começa quando se chega à entrada. O grande caminho de acesso circular é igualzinho à Pemberley de Jane Austen e também semelhante ao local onde entregamos as chaves dos carros aos funcionários no Neiman Marcus, no centro comercial de Short Hills. O Leonard’s é assim: para onde quer que se olhe, faz-nos lembrar os lugares elegantes onde já estivemos. As janelas panorâmicas de dois andares são parecidas com as da Metropolitan Opera House, ao passo que a fonte é como a de Trevi. Quase acreditamos estar no coração de Roma até que percebemos que a cascata de água está de facto a abafar o ruído do trânsito na I-495.

A paisagem é uma maravilha da botânica, com sebes de buxo a formarem rectângulos longos, cercas baixas de teixo, sebes de alfena ovais, e Myrica pensylvanica esculpida em forma de cones de gelados. Os arbustos tratados crescem em canteiros cobertos por seixos brilhantes, um pré-motivo adequado às esculturas de gelo que se erguem sobre o buffet das saladas no interior.

As luzes exteriores sugerem a rua principal de Las Vegas, mas com mais bom gosto aqui, uma vez que as lâmpadas estão recolhidas, iluminando o lugar com uma luz baixa e bruxuleante. Arbustos em forma de crescente ladeiam as portas de entrada. Abaixo deles, bolas de plantas servem de base às aves-do-paraíso que saem dos arbustos como os chapelinhos dos cocktails.

A banda toca Burning Down the House quando aproveito um momento para recuperar o fôlego na salinha das senhoras. Estou sozinha pela primeira vez no casamento da minha irmã Jaclyn e isso agrada-me. O dia parece estender-se. Sustento a tensão de toda a família nas vértebras do pescoço. Quando eu casar, vou fugir para a Câmara Municipal porque os meus ossos não aguentam a pressão de outro extravagante casamento Roncalli. Sentiria a falta dos camarões panados e do pâté, mas iria sobreviver. Os meses a planear este casamento quase me deram uma úlcera, e a sua execução deu ao meu olho direito um tique que só aliviou quando lhe encostei o anel de dentição gelado que surripiei ao bebé da prima Kitty Calzetti depois da Marcha Nupcial.

Apesar da digestão ácida, é um dia maravilhoso, porque estou feliz pela minha irmã mais nova que me lembro de segurar, como uma rosa de porcelana, no dia em que ela nasceu.

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SOBRE o AUTOR:

Adriana Trigiani

Adriana Trigiani é dramaturga premiada, argumentista e realizadora de documentários. Autora da famosa série Big Stone Gap e dos romances Lucia, Lucia, The Queen of the Big Time e Rococo, também escreveu e irá realizar... VISITAR PAGINA SOBRE O(a) AUTOR(a)

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