Prefácio de Nelson Mandela

5ª EDIÇÃO

O Legado de Mandela

Richard Stengel

Ansiamos por heróis, mas os heróis são poucos. Nelson Mandela, que recentemente festejou o seu nonagésimo primeiro aniversário, é o que temos de mais parecido com um santo secular. Libertou um país de um sistema de preconceito violento e ajudou a unir opressores e oprimidos como nunca acontecera. Richard Stengel, o editor...
COMPRAR 16,66€ P.V.P:
CARACTERISTICAS GERAIS:
  • n° PAGS:192
  • ISBN:978-989-657-083-5
  • DIMENSÃO:15,5 x 23,5 cm
EXCERTO do 1? CAPÍTULO:

Ansiamos por heróis, mas os heróis são poucos. Nelson Mandela talvez seja o último dos heróis puros do nosso planeta. É o símbolo sorridente do sacrifício e da rectidão, venerado por milhões de pessoas como um santo vivo. Contudo, esta imagem peca por ser unidimensional. Mandela seria o primeiro a dizer que está longe de ser um santo – e não se trata de falsa modéstia.

Nelson Mandela é um homem pleno de contradições. Tem a pele dura, mas é fácil de magoar. É sensível aos sentimentos alheios, mas por vezes ignora aqueles que lhe estão mais próximos. É generoso com o dinheiro, mas ao dar uma gorjeta conta moeda por moeda. É incapaz de pisar um grilo ou uma aranha, e no entanto foi o primeiro comandante da ala militar do Congresso Nacional Africano (ANC). É um homem do povo, mas tem prazer na companhia de gente famosa. Faz os possíveis por agradar, mas não hesita em dizer não. Não gosta de se vangloriar, mas quando assim o entende não deixa de exigir que lhe sejam reconhecidos os seus méritos. Aperta a mão a todos os que trabalham na cozinha, mas não sabe o nome de todos os seus guarda-costas.

O carácter de Mandela é uma mescla de realeza africana e aristocracia britânica. É um cavalheiro vitoriano que enverga um dashiki de seda. Os seus modos são corteses – afinal de contas foi educado nas escolas coloniais britânicas por professores que tinham lido Dickens quando este ainda escrevia. É um homem formal que cede a passagem com uma pequena vénia e um gesto largo. Mas não é extravagante nem afectado – consegue falar com pormenores quase clínicos sobre a sua higiene rotineira na prisão de Robben Island, ou na sensação de arrancar o prepúcio por ocasião da circuncisão ritual de que foi alvo aos dezasseis anos. Se está em Londres ou em Joanesburgo come com elegantes talheres de prata; em casa, na sua terra natal no Transkei, prefere comer com as mãos, como é costume entre os nativos.

Nelson Mandela é um homem meticuloso. Tira lenços de papel de uma caixa e dobra-os com todo o cuidado antes de os meter na algibeira. Durante uma entrevista, vi-o descalçar um sapato para revirar a peúga, que estava do avesso. Durante os mais de vinte anos que passou na prisão fez cópias de todas as cartas que escreveu e manteve um registo de toda a correspondência recebida, com as datas de recepção e de resposta. Dorme só de um lado da sua cama enorme; o outro lado permanece impecável, como que intocado. Levanta-se antes do nascer do dia e faz a cama todas as manhãs, quer esteja em casa quer num hotel. Tive ocasião de assistir à expressão de espanto das camareiras quando o surpreendem a fazer a cama. Detesta chegar atrasado e considera a falta de pontualidade uma falha de carácter.

Nunca conheci ninguém capaz de ficar tanto tempo imóvel como Nelson Mandela. Quando está sentado ou a escutar alguém, não tamborila com os dedos, não mexe os pés e não anda de um lado para o outro. Não tem tiques nervosos. Quando lhe ajustei a gravata, lhe alisei o casaco ou lhe fixei um microfone na lapela, foi como se estivesse a mexer numa estátua. Quando nos está a escutar, é como se estivéssemos a olhar para uma fotografia dele. Mal se percebe que continua a respirar.

É um sedutor poderoso – seguro de que vai convencer o seu interlocutor, seja qual for o processo a utilizar. É atento, cortês, senhor de si e, para usar uma palavra que detesta, fascinante. E cultiva esse fascínio. Antes de se encontrar com alguém informa-se o mais possível acerca dessa pessoa. Quando foi libertado lia os artigos dos jornais e felicitava os jornalistas citando pormenores. Como todos os grandes sedutores, ele próprio é fácil de seduzir – o truque consiste em deixá-lo perceber que nos convenceu.

O seu encanto tem tanto de político como de pessoal. Em última análise, a política é uma questão de persuasão, e Mandela considera-se mais um Grande Persuasor do que um Grande Comunicador. Tanto pode recorrer à argumentação lógica como ao fascínio – e em geral usa uma combinação de ambos. É mais vulgar persuadir alguém a fazer qualquer coisa do que ordenar-lhe que a faça. Mas se for preciso não hesita em dar uma ordem.

Gosta que gostem dele. Gosta de ser admirado. Detesta desapontar alguém. Adora que depois de uma reunião o interlocutor sinta que ele correspondeu inteiramente ao esperado. Isto exige uma tremenda quantidade de energia, e Mandela entrega-se a quase todos aqueles com quem se encontra. Quase toda a gente tem direito a um Mandela Completo. Excepto quando está cansado. Nessas ocasiões semicerra os olhos e parece dormir em pé. Mas nunca conheci ninguém que recuperasse tanto depois de uma noite bem dormida. Pode parecer às portas da morte às dez da noite, e às seis da manhã seguinte mostrar-se bem-disposto e espirituoso, como se tivesse menos vinte anos.

O seu fascínio exerce-se na proporção inversa do conhecimento que tem dos outros. É caloroso com os estranhos, e frio com os mais íntimos. O sorriso benigno e acolhedor recebe aqueles que passam a circular na sua órbita. Mas é um sorriso reservado para quem vem de fora. Tive ocasião de o ver muitas vezes na companhia do filho e das filhas, e o Nelson Mandela que lhes dá a conhecer é um sujeito habitualmente de rosto fechado, que não demonstra grande compreensão para com os seus problemas. É um pai vitoriano/africano, não é um pai moderno. Quando lhe fazem uma pergunta sobre um tema do qual não quer falar, o seu rosto cobre-se de uma máscara de desagrado. Os cantos da boca descaem, numa caricatura de sorriso. O melhor é não insistir, para que não assuma uma expressão pétrea e volte a sua atenção para outro lado. Quando isso acontece, é como um dia de sol que repentinamente se cobre de nuvens.

Mandela é indiferente a quase todos os bens materiais – não sabe nem quer saber de marcas de automóveis ou de relógios – mas já o vi mandar um guarda-costas fazer uma viagem de uma hora para lhe ir buscar a sua caneta preferida. Quando se trata de dinheiro é generoso com os filhos, mas um empregado de hotel ou de restaurante não deve contar com a sua generosidade. Certo dia almoçámos os dois num restaurante muito em voga de Joanesburgo, onde foi tratado com a máxima eficiência e solicitude. A factura foi muito superior a mil rands, e observei que Mandela escolheu algumas moedas que tinha na mão para deixar uma gorjeta ínfima. Depois de ele ter saído, meti discretamente uma nota de cem rands na mão do empregado. E não foi a única vez que o fiz.

Quando acredita que tem razão, defende-a com uma pertinácia inflexível. Já o ouvi muitas vezes dizer: «Isto não está certo.» Quer se trate de um vulgar assunto mundano ou de um problema de importância internacional, o tom é sempre o mesmo. Ouvi-o dizer isso quando a chave de um dos elementos da segurança não servia na fechadura do escritório, e ouvi-o dizer o mesmo ao então presidente da África do Sul, F. W. de Klerk, a respeito das negociações para a Constituição. Em Robben Island, usou essa expressão durante anos para se dirigir aos guardas ou ao director da prisão. Isto não está certo. Em termos básicos, foi esta intolerância pela injustiça que sempre o motivou. Foi a força motriz do seu descontentamento, o seu veredicto simples sobre os fundamentos imorais em que assentava o apartheid. Quando via que uma coisa estava mal, procurava remediá-la. Quando via uma injustiça, tentava corrigi-la.

E como é que sei tudo isto?

Colaborei com Nelson Mandela na sua autobiografia. Trabalhámos juntos durante três anos, e ao longo de uma boa parte desse período privei com ele quase todos os dias. Viajei com ele, comemos juntos, atei-lhe os atacadores dos sapatos, endireitei-lhe o nó da gravata – e passei horas e horas a conversar com ele acerca da sua vida e do seu trabalho.

O meu encontro com Mandela foi puramente acidental. Em primeiro lugar devo dizer que foi por acaso que fui parar à África do Sul, em substituição de outro jornalista, que cancelou a viagem no derradeiro minuto. Com base nessa viagem, escrevi um pequeno livro sobre a vida numa pequena cidade da África do Sul durante o regime do apartheid. Quando o editor das futuras memórias de Mandela descobriu o meu livro ofereceu-me a possibilidade de colaborar com ele na elaboração da história da sua vida.

Description image
SOBRE o AUTOR:

Richard Stengel

Richard Stengel é o editor da revista Time. Colaborou com Nelson Mandela na biografia do líder sul-africano, O Longo Caminho para a Liberdade. É também autor de January Sun: One Day, Three Lives, a South... VISITAR PAGINA SOBRE O(a) AUTOR(a)

SE GOSTOU DESTE LIVRO, NÃO PODE DEIXAR DE LER:

COMENTAR

 

ENVIAR a um AMIGO!

Recomendar o livro "O Legado de Mandela"

Preencha correctamente todos os campos do formulário abaixo.

Obrigado pela sua recomendação!

A sua mensagem foi enviada com sucesso.