Os Objectos Chamam-Nos

Juan José Millás

Juan José Millás actua neste livro como um mestre das distâncias curtas. Cada um destes textos, breves como um clarão, ilumina um segredo, revela um mistério, provoca uma pergunta. Todos, sob essa escrita rigorosa e veloz, escondem uma surpresa. Inimitável mistura de humor, pânico, ironia, nessa atmosfera entre realista e...
COMPRAR 17,67€ P.V.P:
CARACTERISTICAS GERAIS:
  • n° PAGS:296
  • ISBN:978-989-657-056-9
  • DIMENSÃO:15,5 x 23,5 cm
EXCERTO do 1? CAPÍTULO:

A melhor tarde da minha vida

Quando os ansiolíticos se me acabam, vou ver a minha mãe e roubo‑lhe uma mão cheia às escondidas. Tem‑nos de todas as marcas, e não apenas ansiolíticos, mas também verdadeiros hipnóticos, além de indutores do sono, relaxantes musculares e anti‑inflamatórios. Não sei como consegue as receitas, mas a verdade é que nunca lhe falta um comprimido para levar à boca. Eu, pelo contrário, tenho de os mendigar porque todos os médicos com que tropeço são contra os químicos. Alguns aconselham‑me exercícios respiratórios, e outros, verduras, quando o que me deu resultado durante toda a vida foram os comprimidos. Portanto, fui a casa da minha mãe a seguir ao almoço e pus‑me a ver televisão com ela até que adormeceu. Então deslizei na ponta dos pés até à casa de banho e abri o armário com três portas de espelho onde guarda os estupefacientes, mas estava vazio.

Depois da primeira reacção de surpresa, percebi que ela se tinha dado conta que sempre que eu a visitava desapareciam duas ou três dúzias de comprimidos, o que talvez a tivesse levado a mudá‑los de sítio. Fui ao quarto dela e revistei todas as gavetas do armário, assim como as divisórias da mesa‑de‑cabeceira, mas nada encontrei. Quando regressei à sala, a minha mãe abriu os olhos e perguntou‑me:

– Estás realmente aqui ou és um pesadelo? – Sou um pesadelo – respondi desconcertado, e ela voltou a fechar os olhos.

Vi então uma caixa de comprimidos em cima da mesa do café. Não tinha mais de três drageias que não sei para o que eram, mas tomei uma azul e pouco depois invadiu‑me uma paz inexplicável que nascia no plexo solar, de onde se abria em leque para irradiar quantidades discretas de felicidade na direcção do cérebro. Devia ser um hipnótico de última geração. Li há pouco tempo numa revista farmacêutica que estes hipnóticos não deixam sequelas nem produzem mais habituação do que as batatas fritas.

 Depois de desfrutar durante uns instantes daquele estado de paz budista, comecei a olhar à volta, tentando conjecturar onde poderia a minha mãe guardar os medicamentos. Enquanto espreitava para dentro de uma sopeira, ela voltou a abrir os olhos e a observar‑me fixamente, mas desta vez não me perguntou nada. Só disse para consigo:

«Já cá está outra vez este pesadelo», e voltou a adormecer. Revistei todos os recantos do aparador encontrando um prazer enorme em manusear os talheres e os pratos de louça da minha infância. Normalmente, esses objectos parecem‑e sinistros, mas o comprimido azul, que tanta paz me proporcionara, munira‑me também de um olhar novo, ingénuo. Pareceram‑me uma obra de arte as colherzinhas de café e os alicates para o marisco. Nunca comemos marisco na minha casa (e estivemos quase a não comer peixe), mas o meu pai, que em paz descanse, comprou no Rastro  aqueles alicates, suponho que para acreditar que era alguém.

Com medo que a minha mãe acordasse, baixei o som da televisão, mas foi isso precisamente que a fez abrir novamente os olhos. Desta vez, olhando fixamente para mim, perguntou‑me:

– És tu ou o teu irmão?

Tenho um irmão gémeo que é, com razão, o preferido da minha mãe. Respondi‑lhe que era o meu irmão, esperando acertar e acertei em cheio, pois inclinou a cabeça para um lado e começou a ressonar. À medida que passava o tempo, os efeitos do comprimido azul multiplicavam‑se. Estabeleceu‑se uma curiosa harmonia entre os objectos da casa e os batimentos do meu coração, fazendo‑me sentir que a realidade e eu éramos a mesma coisa, ideia que me inundou de bondade, ao ponto de chegar a duvidar se eu era eu ou o meu irmão. Uma voz interior disse‑me que eu era eu e que portanto devia continuar à procura dos comprimidos. Encontrei‑os por fim dentro de uma lata de Cola Cao, na cozinha.

Havia centenas, de diferentes tamanhos e cores, mas nenhum era azul, pelo que supus que a minha mãe tinha o tesouro distribuído por diferentes lugares. Agarrei numa mão‑cheia, como fazia habitualmente, e tinha acabado de fechar a lata quando me pareceu ouvir o roçar de uma chave na fechadura da porta da rua. Só o meu irmão e eu, além da minha mãe, claro, temos chave, pelo que supus que era o meu irmão. Escondi‑me atrás da porta da cozinha e ouvi os seus passos a dirigir‑se à sala. Quando tive a certeza absoluta de que não me podia ouvir, deslizei para o corredor e abandonei a casa sem que ele se tivesse apercebido da minha presença. Apanhei um táxi e fui a casa do meu irmão, onde a minha cunhada me convidou a tomar um café e a conversar até que começaram a passar os efeitos do comprimido azul.


Description image
SOBRE o AUTOR:

Juan José Millás

Nascido em Valência, em 1946, Juan José Millás cedo se muda para Madrid, onde passará a maior parte da sua vida. Frequentou o curso de Filosofia e Letras, que veio a abandonar, desiludido com as... VISITAR PAGINA SOBRE O(a) AUTOR(a)

SE GOSTOU DESTE LIVRO, NÃO PODE DEIXAR DE LER:

COMENTAR

 

ENVIAR a um AMIGO!

Recomendar o livro "Os Objectos Chamam-Nos"

Preencha correctamente todos os campos do formulário abaixo.

Obrigado pela sua recomendação!

A sua mensagem foi enviada com sucesso.