Macallan Silver Dagger

Pedras Ensanguentadas

Donna Leon

Muitas vezes comparada a Agatha Christie, Donna Leon é uma escritora best-seller. Os seus romances estão traduzidos em dezenas de línguas e figuram nas listas dos mais vendidos em todo o mundo. Pedras Ensanguentadas é o 14º livro da autora sobre as investigações do famoso comissário Guido Brunetti. Sempre atenta aos...
COMPRAR 18,80€ P.V.P:
CARACTERISTICAS GERAIS:
  • n° PAGS:286
  • ISBN:9789896570972
  • DIMENSÃO:15,5x21,5
EXCERTO do 1? CAPÍTULO:

Dois homens passaram sob o arco de madeira que conduzia ao Campo Santo Stefano, os corpos como arlequins sob as luzes coloridas do Natal suspensas mais acima. Luzes mais brilhantes espalhavam-se a partir das bancas do mercado de Natal, onde os vendedores e produtores de diferentes regiões de Itália tentavam os compradores com as suas especialidades: queijos de crosta escura e embalagens de pão fino como papel da Sardenha, azeitonas de formas e cores variáveis de toda a extensão da península; azeite e queijo da Toscana; salames de todos os tamanhos, composições e diâmetros de Reggio Emilia.

Ocasionalmente, um dos homens por detrás dos balcões gritava um breve pregão à qualidade dos seus artigos: «Signori, provar este queijo é provar o céu»; «Já é tarde e eu quero ir jantar: apenas nove euros o quilo até acabar»; «Provem este pecorino, signori, o melhor do mundo».

Os dois homens passaram pelas bancas, surdos ao apregoar dos comerciantes, cegos para as pirâmides de salames empilhadas nos balcões de cada um dos lados. Compradores de última hora, o número reduzido pelo frio, pediam produtos que suspeitavam poder encontrar a melhores preços e com mais fiável qualidade nas lojas das suas vizinhanças. Mas como melhor celebrar a estação senão a aproveitar as lojas que estavam abertas até neste domingo, e como melhor afirmar a independência e o carácter senão a comprar algo desnecessário?

No extremo mais distante do campo, para lá da última das bancas de madeira prefabricadas, os homens detiveram-se. O mais alto dos dois olhou para o relógio, embora tivessem ambos consultado as horas no relógio da parede da igreja. A hora do fecho oficial, sete e meia, passara já há mais de um quarto de hora, mas era improvável que alguém saísse com este frio para verificar se as bancas tinham cessado o seu comércio à hora correcta.

Allora? – perguntou o baixo, olhando de relance para o companheiro. O homem mais alto tirou as luvas, dobrou-as e guardou-as no bolso esquerdo do sobretudo, depois enfiou as mãos nos bolsos. O outro fez o mesmo. Ambos usavam chapéu, o mais alto um Borsalino cinzento-escuro e o outro um gorro de pêlo com abanos para as orelhas. Ambos traziam cachecóis de lã enrolados em redor dos pescoços e, quando saíram do círculo de luz da última banca, puxaram-nos mais para cima, a rodear as orelhas, nada estranho de se fazer em face do vento que lhes chegava do Grand Canal, mesmo do outro lado da esquina da Igreja de San Vidal. O vento forçou-os a baixar as caras quando seguiram em frente, os ombros arqueados, as mãos conservadas quentes nos bolsos. Vinte metros à frente da última banca, de cada lado do caminho, pequenos grupos de homens negros altos atarefavam-se a estender lençóis no chão, ancorando-os aos cantos com malas de senhora. Assim que os lençóis ficaram dispostos, os homens negros começaram a retirar amostras de diversas formas e tamanhos de enormes sacos em forma de salsicha que se encontravam espalhados em redor.

Aqui Prada, ali Gucci, entre estas Louis Vuitton: as malas agrupadas numa promiscuidade habitualmente apenas vista em lojas suficientemente grandes para oferecer franchises a todos os estilistas concorrentes. Rapidamente, com a velocidade que advém da longa experiência, os homens curvavam-se ou ajoelhavam-se para dispor os seus artigos nos lençóis. Alguns arranjavam-nos em triângulos; outros preferiam filas ordenadas de malas perfeitamente alinhadas. Um deles dispôs caprichosamente as suas em círculo, mas quando recuou para inspeccionar o resultado e viu como uma grande mala Prada de ombro castanho-escura perturbava a simetria geral, rapidamente as reordenou em linha, onde a Prada podia ancorar os seus atributos na fila da esquerda e atrás.

Ocasionalmente, os homens negros falavam uns com os outros, dizendo aquelas coisas que os homens que trabalham juntos dizem para passar o tempo: não tinha dormido bem na noite anterior, o frio que estava, outro esperava que o filho tivesse passado no exame para a escola particular, as saudades que tinham das mulheres. Quando algum ficava satisfeito com o arranjo das suas malas, erguia-se e dirigia-se para a parte de trás do lençol, normalmente para um dos cantos para poder continuar a falar com o homem que trabalhava a seu lado. A maior parte deles era alta, e eram todos esguios. O que podia ser visto das suas peles, das caras e das mãos, era o negro brilhante dos africanos cuja ancestralidade não fora diluída pelo contacto com os brancos. Quer em movimento ou parados, exsudavam uma atmosfera não apenas de boa saúde mas de boa disposição, como se a ideia de andar por ali com temperaturas de enregelar, tentando vender malas contrafeitas aos turistas, fosse a coisa mais divertida que tinham para fazer nessa noite.


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SOBRE o AUTOR:

Donna Leon

Donna Leon nasceu a 29 de Setembro de 1942 na Nova Jérsia, mas viveu em Veneza durante vinte anos. Exerceu a actividade de Leitora de Literatura Inglesa na Universidade de Maryland. Há alguns anos a... VISITAR PAGINA SOBRE O(a) AUTOR(a)

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