Provas Manipuladas

Donna Leon

Quando uma veneziana idosa é brutalmente assassinada, a principal suspeita é a sua empregada romena, que fugiu da cidade. Quando tenta sair do país, levando consigo uma considerável soma e documentos falsos, a empregada mete-se à frente de um comboio e morre atropelada. Caso encerrado. Mas quando a vizinha da...
COMPRAR 17,91€ P.V.P:
CARACTERISTICAS GERAIS:
  • n° PAGS:248
  • ISBN:978-989-657-066-8
  • DIMENSÃO:15,5 x 23,5 cm
EXCERTO do 1? CAPÍTULO:

Ela era uma velha estúpida e ele odiava-a. Como era médico e ela sua paciente, sentia remorsos por odiá-la, mas o remorso não o fazia odiá-la menos. Maldosa, gananciosa, mal-humorada, sempre a queixar-se da saúde e das poucas pessoas que ainda tinham estômago para aturá-la, Maria Grazia Battestini era uma mulher de quem nada de bom podia ser dito, nem mesmo pela mais generosa das almas.

O padre tinha desistido dela há muito tempo, e os vizinhos falavam dela com aversão, às vezes com hostilidade aberta. A família relacionava-se com ela apenas o estritamente indispensável por questões de herança. Mas ele era médico e não tinha outro remédio a não ser fazer-lhe a visita semanal, que agora consistia apenas em perguntar-lhe como se sentia, e medir-lhe o pulso e a tensão o mais rapidamente possível.

Há mais de quatro anos que vinha vê-la, e a sua aversão tinha crescido de tal maneira que deixara de se sentir culpado pela decepção de não encontrar nela sintomas de doença. A mulher acabara de fazer oitenta anos, embora pelo seu aspecto e comportamento parecesse ter mais dez, não obstante, o médico estava certo de que o enterraria a ele e a todos. Tinha uma chave e usou-a para entrar no prédio. A mulher era dona daquilo tudo, dos três andares, embora ocupasse apenas metade do segundo. O despeito e a mesquinhez levavam-na a manter a ficção de que ocupava tudo, pois ao fazê-lo impedia a filha da sua irmã Santina de se mudar tanto para o piso de cima como para o de baixo. Ele já não se recordava de quantas vezes, depois da morte do filho, a ouvira atacar a irmã e felicitar-se, muito ufana, de ter frustrado os planos da família para a casa. Falava da irmã com um rancor que só aumentara desde a infância.

Ele girou a chave para a direita e, porque faz parte da natureza das portas venezianas não abrirem à primeira tentativa, puxou automaticamente a porta para si ao virar a chave. Abriu-a, entrando no vestíbulo escuro. Nenhuma luz solar conseguia penetrar nas décadas de gordura e sujidade que cobriam as duas janelas estreitas por cima da porta que dava para a calle. Ele já se habituara à obscuridade e há anos que a Signora Battestini deixara de ser capaz de descer as escadas, pelo que era improvável que as janelas fossem limpas em breve. A humidade fundira os fios uns anos antes, mas ela recusava-se a pagar a um electricista, e ele perdera o hábito de tentar acender a luz.

Começou a subir o primeiro lanço de escadas, contente por aquela ser a sua última visita da manhã. Quando saísse de casa da velha harpia iria beber um copo, depois almoçar. Só precisava de estar no consultório às cinco da tarde para ver os seus doentes; não tinha planos para depois do almoço e nada que quisesse particularmente fazer, desde que pudesse estar livre da visão e do som dos corpos consumidos e inchados. Quando começou o segundo lanço, deu por si a desejar que a nova mulher – julgava que aquela era romena, pois era assim que a velha se referia a ela, embora nunca ficassem tempo suficiente para ele se lembrar dos seus nomes – durasse mais do que as outras. Desde a sua chegada, a velha estava pelo menos limpa e não fedia a urina. Ao longo dos anos ele vira-as ir e vir; vir, porque eram atraídas pela perspectiva de trabalho, mesmo que isso significasse limpar e alimentar a Signora Battestini e suportar aos seus maus tratos; ir porque não tardavam a ser incapazes de aguentar a crueldade, mesmo com o imperativo da mais absoluta necessidade.

Por um hábito de cortesia, bateu à porta, embora soubesse que seria uma cortesia fútil. A televisão aos berros, que era audível mesmo fora do prédio, abafava o som: até os ouvidos mais jovens da romena – como se chamava ela? – raramente davam pela sua chegada.

Pegou na segunda chave, rodou-a duas vezes e em seguida entrou no apartamento. Pelo menos estava limpo. Uma vez, cerca de um ano depois da morte do filho, se bem se lembrava, tinham deixado a velha sozinha durante mais de uma semana. Ainda se recordava do cheiro quando abrira a porta para a sua então visita bimensal: na mesa da cozinha, pratos sujos de uma semana com restos de comida em decomposição, em pleno mês de Julho. E ela própria, aquele corpo obeso, nu e coberto com os restos das coisas que tentara comer, curvado numa cadeira em frente da televisão aos berros. Ela acabara no hospital dessa vez, desidratada e desorientada, mas ao fim de três dias mandaram-na embora. Ela dizia que queria ir para casa, e eles contentes tinham-lhe feito a vontade. A ucraniana vinha na altura, aquela que desaparecera ao fim de três semanas, levando uma bandeja de prata, e ele tornara as visitas semanais. Mas a velha não tinha mudado: o seu coração batia estável, os pulmões aspiravam o ar do apartamento e as camadas de gordura iam ficando cada vez mais espessas.

Ele pousou a mala em cima da mesa perto da porta, satisfeito por ver que a superfície estava limpa, um sinal claro de que a romena ainda lá ia. Pegou no estetoscópio, enganchou-o atrás das orelhas e entrou na sala. Se a televisão não estivesse ligada, ele provavelmente teria ouvido o barulho antes de entrar. Mas no ecrã a loura de pele esticada com caracóis à Shirley Temple apresentava as informações de trânsito, alertando os motoristas do Véneto para o potencial inconveniente do traffico intenso na A4, abafando o industrioso zumbido das moscas em volta da cabeça da velha.

Ele estava habituado à visão de morte nos velhos, mas as mortes em idade avançada eram geralmente mais decorosas do que aquilo que viu no chão. Os velhos morrem placidamente ou com agitação, mas porque raramente a morte chega na forma de um assalto, poucos lhe resistem com violência. Ela também não resistira. Quem a matara devia tê-la apanhado completamente desprevenida, pois ela estava no chão à esquerda de uma mesa que continuava em pé, sobre a qual se via uma chávena vazia e o controlo remoto da televisão. As moscas tinham decidido dividir a sua atenção entre um prato de figos frescos e a cabeça da Signora Battestini. A morta tinha os braços estendidos para a frente, e encontrava-se deitada com a bochecha esquerda no chão. A cabeça fez-lhe lembrar uma bola de futebol do filho que uma vez fora mordida pelo cão e amolgara de um dos lados. Ao contrário da cabeça, a superfície da bola de futebol permanecera lisa e intacta; nada vazara para fora.

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SOBRE o AUTOR:

Donna Leon

Donna Leon nasceu a 29 de Setembro de 1942 na Nova Jérsia, mas viveu em Veneza durante vinte anos. Exerceu a actividade de Leitora de Literatura Inglesa na Universidade de Maryland. Há alguns anos a... VISITAR PAGINA SOBRE O(a) AUTOR(a)

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