INTRODUÇÃO

17 de Setembro de 2010 às 15:53

Marina disse-me uma vez que apenas recordamos o que nunca aconteceu. Passaria uma eternidade antes que compreendesse aquelas palavras. Mas mais vale começar pelo princípio, que neste caso é o fim.

Em Maio de 1980 desapareci do mundo durante uma semana. No espaço de sete dias e sete noites, ninguém soube do meu paradeiro. Amigos, companheiros, professores e até a polícia lançaram-se na busca daquele fugitivo que alguns já julgavam morto ou perdido por ruas de má fama como num lapso de amnésia.

Uma semana mais tarde, um polícia à paisana julgou reconhecer aquele rapaz; a descrição condizia. O suspeito vagueava pela estação de Francia como uma alma perdida numa catedral forjada de ferro e nevoeiro. O agente aproximou-se de mim com ar de romance negro. Perguntou-me se o meu nome era Óscar Drai e se era eu o rapaz que desaparecera sem deixar rasto do internato onde estudava. Assenti sem descerrar os lábios. Recordo o reflexo da abóbada da estação no vidro dos seus óculos.

Sentámo-nos num banco do cais. O polícia acendeu um cigarro com calma. Deixou-o queimar sem o levar aos lábios. Disse-me que havia uma grande quantidade de pessoas à espera de me fazer muitas perguntas para as quais era conveniente que tivesse boas respostas. Assenti de novo. Olhou-me nos olhos, estudando-me. «Às vezes, contar a verdade não é uma boa ideia, Óscar», disse. Estendeu-me umas moedas e pediu-me que telefonasse ao meu tutor no internato. Assim fiz. O polícia esperou que tivesse feito a chamada. Depois, deu-me dinheiro para um táxi e desejou-me sorte. Perguntei-lhe como sabia que não ia desaparecer de novo. Observou-me longamente. «Só desaparecem as pessoas que têm algum lugar para onde ir», respondeu apenas. Acompanhou-me até à rua e ali se despediu, sem perguntar onde tinha estado. Vi-o afastar-se pelo Paseo Colón. O fumo do seu cigarro intacto seguia-o como um cão fiel.

Naquele dia, o fantasma de Gaudí esculpia no céu de Barcelona nuvens impossíveis sobre um azul que fundia o olhar. Apanhei um táxi até ao internato, onde supus que me esperaria o pelotão de fuzilamento.

Durante quatro semanas, professores e psicólogos escolares atormentaram-me para que revelasse o meu segredo. Menti e ofereci a cada um aquilo que queria ouvir ou o que podia aceitar. Com o tempo, todos se esforçaram por fingir que tinham esquecido aquele episódio. Segui o seu exemplo. Nunca expliquei a ninguém a verdade do que sucedera.

Não sabia então que o oceano do tempo mais tarde ou mais cedo nos devolve as recordações que nele enterramos. Quinze anos mais tarde, a memória daquele dia voltou até mim. Vi aquele rapaz a vaguear por entre as brumas da estação de Francia e o nome de Marina tornou-se de novo incandescente como uma ferida fresca.

Todos temos um segredo fechado à chave nas águas-furtadas da alma. Este é o meu.

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